A última dose desceu pela garganta, repouso então o copo junto às garrafas que assim como uma prostituta após o coito, repousam vazias. Não há aqui viva alma além da minha que ainda insiste em habitar esse corpo. Não sei há quanto tempo estou aqui, dias, semanas talvez, tanto faz. Noites já vieram e tornaram-se dia. Em momento algum lembro de estar tão lúcido quanto agora, o que torna tudo isso ainda pior, pois a realidade é a ultima coisa de preciso a essa altura, ao menos não a minha, preferia aquela criada por mim e pelo álcool, sem dor, sem nomes, sem rostos, sem lembranças e, o melhor, sem culpa.
Eu poderia ir até a estante e abrir um dos muitos livros e embarcar em um faz de conta qualquer. Mas, por que diabos escolheria viver os sonhos, as loucuras, as dores e angústias de outra pessoa? Se eu já não consegui carregar a minha cruz, terei de carregar então a cruz de outro? Continuo com a minha então.
Os velhos discos de, velhas músicas, tão cansadas quanto eu, são a companhia para suprir a ausência de quem não volta. Companhia para aguardar algo que demora, espero apenas que não façam como o Whisky, que que partiu antes da hora. Todos temos vícios assim como temos virtudes, meus vícios morreram, e a minha única virtude no momento é a paciência, para esperar um fim como o deles.
Pois sim, mesmo a contragosto aqui estou, frente a frente com o espelho, a imagem que ele reflete em nada se parece com quem realmente sou, ou melhor, com quem eu costumava ser. Mas é a mais adequada a forma como me sinto neste momento, ao meu atual estado de espírito. Na medida em que vou caindo em mim novamente. As lembranças também recorrem e, infelizmente, as coisas passam também a fazer sentido, como por exemplo, o fato de eu estar trajando preto, não que eu não costume fazê-lo, mas não de maneira tão séria e tão fria. Há em minhas roupas um odor que lembra madeira, em partes, contribuição do meu grande parceiro destes últimos tempos, o velho Jack. Qual seria a explicação para os lírios? Certamente é a mesma para a lama e os pedaços de grama, a mesma resposta para as olheiras, para insônia, para o meu anseio de que tudo isso acabe.
Vejo-me lá ainda, em pé petrificado ao ver a urna descer para a escuridão da sepultura, ver uma após a outra as porções de terra a cobrir o que será teu último leito. A vivacidade das lembranças alimentam em mim uma gama de sentimentos, um deles o desejo de tentar acordar deste pesadelo, o outro, o desejo de que aquela terra não tivesse cobrido apenas aquela urna e sepultado com ela a minha alma, mas também tivesse para mim um lugar na escuridão da terra fria, pois andar morto por ai como estou me parece um desperdício de tempo e espaço.
Remédios para dormir, qual será a dose para uma noite eterna?
Uma pressão forte no peito me trouxe à tona, a luz forte que vi imediatamente ao abrir meus olhos me deu a ligeira impressão de que havia alcançado meu propósito, impressão se desfez em questão de segundos, assim que ouvi o bip dos aparelhos e a conversa entre os médicos e assistentes tornou-se compreensível. Pela quantidade de comprimidos que eu ingeri, a luz que eu deveria ver não deveria ser a da sala de emergência do hospital. Agora entendo o que ela queria dizer quando questionava minha opção por medicação natural para dormir, tomei uma dose que deveria nocautear um rinoceronte e acabei dormindo como um bebê.
Sei que para muitas pessoas isso foi um milagre, que eu deveria estar agradecido por ter sido resgatado e "salvo" a tempo, porém, trata-se exatamente do contrário, não esperava ser salvo, não desejei que isso acontecesse, não mesmo, porém tal vontade não foi levada em consideração pelo meu irmão, que após dias de telefonemas não atendidos, mensagens não respondidas, decidiu ir até minha casa e, ao se deparar com a porta fechada e o carro na garagem, temendo por uma atitude desesperada minha, decidiu arrombar a porta e, ao se deparar com meu corpo inerte sobre a mesa no centro da sala, com um frasco vazio de remédio para dormir em uma das mãos, cercado de uma quantidade segundo ele absurda de garrafas vazias, temeu ser tarde demais, porém ao verificar meu pulso constatou que ainda restava um sopro de vida em meu corpo. Segundo ele, foi assim que eu vim parar aqui.
O médico esteve em meu quarto hoje, disse que minha sorte foi ter ingerido remédios naturais, de outra forma a combinação com o grande volume de álcool que ingeri teriam me levado à morte em minutos. Por que eu não a escutei quando me recomendou tomar calmantes sintéticos? E por que dei ouvido a você quando me recomendou que me livrasse da pistola? Não precisaria estar aqui agora, vigiado como um menino levado, cheio da agulhas, nem ir ao banheiro consigo sem que um enfermeiro me acompanhe. Hoje, inclusive, um deles esteve aqui para me ajudar a tomar banho e a me barbear, me senti ainda mais incapaz por não conseguir ao menos segurar a lâmina para sem ajuda do enfermeiro, porém um grito interrompeu meu barbear, nunca fiquei tão feliz por ouvir alguém gritar de dor. Ao ouvir o paciente do quarto gritar, o enfermeiro saiu rapidamente do meu quarto, deixando a lâmina de barbear dentro de uma bacia com a água, na mesa a minha frente. Eu durante todos esses anos usei sempre barbeadores elétricos, por achar arcaico demais usar lâmina e espuma, agora, após com um simples deslizar de lâmina ter resolvido o que nem o álcool nem as drogas deram jeito, me dou conta de que a tecnologia nem sempre facilita nossas vidas.
O branco lençol da cama rapidamente torna-se vermelho à medida que meu sangue jorra, tudo vai ficando cada vez mais distante, mais calmo. Me espera, baby, estou indo.